Os médicos tinham percebido tudo mal. Durante décadas, muitos psiquiatras acreditaram que as crianças com perturbação de hiperactividade e défice de atenção ( PHDA) poderiam simplesmente ficar curadas quando crescessem. Mas novas evidências revelam uma verdade distinta. Embora milhões de crianças estejam actualmente diagnosticadas com PHDA, um levantamento recente dos Centros de Controlo de Doenças dos EUA revela que 15,5 milhões de adultos norte-americanos também padecem da condição. Cerca de metade foram diagnosticados na idade adulta.
Há também que ter em conta a intensidade das reacções. Tanto nas crianças como nos adultos, os sintomas podem ser “muito ligeiros ou muito graves”, diz a docente. A PHDA implica que o individuo exiba com frequência estas tendências em diversas situações, incluindo na escola, em casa ou no local de trabalho, e que isso afecta a sua capacidade de completar tarefas. Craig Surman, médico e psiquiatra que dirige o programa de investigação de PHDA no adulto no Hospital Geral de Massachusetts, explica que, embora a natureza impulsiva e hiperactiva da perturbação costume diminuir na idade adulta, “as características de falta de atenção persistem com frequência”.
A crescente prevalência da perturbação nos adultos deve-se, em parte, ao maior conhecimento da sua existência e ao facto de pessoas com diagnósticos errados terem procurado ajuda. A PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento, o que significa que afecta a forma como o cérebro se desenvolve e funciona e é predominantemente genética. Alguns investigadores sugerem agora que a nossa dependência excessiva da tecnologia poderá exacerbar a perturbação ou causar sintomas semelhantes.
“É legítimo considerar a possibilidade de défice de atenção adquirido”, diz John Ratey, médico, neuropsiquiatra e professor clínico associado de psiquiatria na Faculdade de Medicina de Harvard. Actualmente, as pessoas são obrigadas a executar várias tarefas em simultâneo e vêem-se constantemente bombardeadas por estímulos tecnológicos, o que pode conduzir ao vício em ecrãs. Isto “pode encurtar o limiar de atenção”, diz.
A PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento, pois afecta a maneira como o cérebro se desenvolve e funciona, e é predominantemente genética.
Embora alguns estudos tenham explorado essa ligação, as conclusões não são definitivas. Há quase uma década, um estudo publicado na revista Psychology of Addictive Behaviors sugeriu que a PHDA estava associada ao uso compulsivo e excessivo de videojogos e redes sociais. Mais recentemente, em 2020, cientistas da Universidade da Califórnia descobriram que, embora a maioria dos estudos se centrasse em crianças e adolescentes, havia uma ligação entre o tempo prolongado de exposição a ecrãs e sintomas de PHDA em indivíduos de todas as idades.
Sejamos claros: a PHDA adquirida não é um diagnóstico oficial. A ligação entre o uso da tecnologia e os problemas de atenção também poderá ser atribuída ao facto de as pessoas constantemente à frente de ecrãs terem menos oportunidades de deixar os seus cérebros descansar no seu estado normal. “Durante muito tempo, a associação entre a PHDA e o uso excessivo da Internet foi uma pergunta similar à do ovo e da galinha na nossa área”, diz Elias Aboujaoude, professor de clínica médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford. “Será que as pessoas se tornam consumidoras excessivas de Internet porque têm PHDA e a vida passada na Internet é mais compatível com o seu limiar de atenção, ou desenvolvem PHDA devido ao consumo excessivo de Internet?” Tanto a experiência clínica como as investigações em curso sugerem, cada vez mais, que os ecrãs influenciam o comportamento.

Os factores subjacentes à utilização da tecnologia talvez também contribuam para – ou causem – o aparecimento de características de PHDA nos adultos. Segundo Ratey, as alterações hormonais relacionadas com a menstruação ou a menopausa trazem à superfície sintomas latentes de PHDA nas mulheres. “As mulheres são um dos principais grupos demográficos não-diagnosticados com PHDA, sendo com frequência medicadas com antidepressivos e ansiolíticos quando, na verdade, padecem de sintomas relacionados com PHDA”, explica.
A tendência para os sintomas de PHDA se sobreporem aos de outros problemas da saúde mental não é exclusiva das mulheres. “A PHDA raramente anda sozinha nos adultos”, diz Zylowska. “Tal como a febre pode ter explicações diferentes, os problemas de atenção podem dever-se a razões diferentes.” Na sua opinião, factores como o stress, os efeitos secundários de medicação e o défice de sono também dificultam a concentração. “Da mesma forma, outros sintomas de saúde física ou mental, incluindo ansiedade, depressão, apneia do sono, alterações cognitivas relacionadas com a idade e problemas de tiróide podem mimetizar a PHDA.”
Como a PHDA surge com frequência acompanhada de outras perturbações, não deve ser deixada por tratar, assegura Mark Stein, psicólogo do programa de PHDA do Hospital Pediátrico de Seattle e professor de psiquiatria e ciências comportamentais na Universidade de Washington. “O conselho mais importante que tenho para dar é: procure obter uma avaliação correcta”, diz ele.
Como é evidente, os adultos que procuram um diagnóstico clínico podem descobrir que os problemas subjacentes sempre lá estiveram. Os psiquiatras procuram sintomas que se tenham manifestado na juventude (o limiar do diagnóstico é aos 12 anos), mesmo que tenham passado despercebidos. E podem detectar pistas lendo diários antigos ou apontamentos de professores, entrevistando familiares ou ouvindo o paciente relatar as suas memórias dessa altura. Talvez quando os pais ou os professores não conseguiram reconhecer os sintomas, a criança tenha desenvolvido formas de os contornar.
Algumas crianças podem não ter dificuldades suficientes para suscitar preocupações. “Não é invulgar encontrar uma criança desatenta que não perturba a sala de aula e é, por isso, ignorada”, diz Zylowska. Os horários fixos, as actividades estruturadas e a ajuda dos pais também podem contribuir para que os sintomas sejam ignorados até o indivíduo perder essa estrutura. RachBeisel explica que, quando a PHDA não é detectada e essas crianças crescem e saem de casa dos pais, começam, por vezes, a sentir dificuldades ou “reparam que têm de esforçar-se duas a três vezes mais para alcançar o mesmo nível de sucesso que os seus pares”.
“A PHDA tem os seus desafios, mas também confere dons enormes que incluem criatividade, entusiasmo, curiosidade, lealdade e foco no projecto quando algo é interessante”, explica Ratey. “É uma questão de encontrar o trabalho certo, os amigos certos e o companheiro certo para desenvolver os pontos fortes da PHDA e fazê-lo voar.”
Artigo publicado originalmente na edição de Dezembro de 2025 da revista National Geographic.


