Não se faz mais Super-Homens como antigamente. Em 1978, a primeira versão do herói para o cinema salvava o avião presidencial, impedia roubos e até fazia o tempo retroceder para salvar sua amada Lois Lane. No novo “Superman”, que acaba de estrear, temos um herói que mais apanha do que bate, vê um amigo morrer sem poder agir e depende do seu pet, Krypto, para se salvar.
Estrelado por Christopher Reeve, o primeiro filme do Homem de Aço inaugurou a era dos super-heróis, apenas um ano depois da estreia de “Guerra nas Estrelas” (1977). O Superman era um semideus, tanto que seu pai de outro planeta, Jor-El, era ninguém menos que Marlon Brando, o maior ícone de uma Hollywood ainda em seu auge.
O impacto do filme chegou até à nossa MPB. Ao ver o filme no cinema, Caetano Veloso ficou muito empolgado com a cena em que Superman salva Lois Lane. Chegou em casa e contou a cena a Gilberto Gil, que dormia em sua casa naquele dia. Gil ficou tão empolgado com o relato do amigo que em uma hora compôs música e letra de “Super-Homem – A Canção”, aquela que diz “Quem sabe / O super-homem venha nos restituir a glória / Mudando como um deus o curso da história / Por causa da mulher”.
E como é que desse Deus na Terra fomos parar num Superman que mais apanha do que bate, já começa o filme jogado na neve depois de tomar uma bela surra e precisa da ajuda do seu fofo cãozinho, Krypto, para sair das maiores confusões dignas da Sessão da Tarde? Pois é, o Homem de Aço agora é no máximo de alumínio.
Claro, não se chegou a esse Superman meio bobalhão, meio gente como a gente, do nada. Ele é fruto da vitória do estilo Marvel, que colheu muitos sucessos com seus filmes que misturavam ação e humor na mesma medida. Enquanto isso, os filmes da DC, mais solenes e pesados, somaram muitos fracassos, entre eles um improvável “Batman vs Superman”. Suavizar os heróis da DC era uma questão de sobrevivência de mercado. Até os super-heróis dependem de receita para sobreviver.
Segundo fator: a direção do novo filme é de James Gunn, o cara que transformou em sucesso absoluto uns personagens meio caídos da Marvel, os Guardiões das Galáxias. É o humor da quinta série dessa trilogia que ele emprega em seu primeiro “Superman”.
Mas não sejamos tão críticos: o novo filme não é (apenas) uma bobagem descartável para adolescentes. Ele também entrega todo um comentário político sobre um tirano que compra armamentos do vilão Lex Luthor para usá-los contra uma pequena república indefesa. No filme, o tirano da Borávia quer dominar o pequeno Jarhanpur –e a situação logo nos remete à Rússia contra a Ucrânia, e a Israel contra o Irã ou a Palestina.
Resumindo: o novo filme do Homem de Aço está longe de ser ruim. Mas talvez ele seja o retrato fiel do estado em que se encontram Hollywood e os Estados Unidos hoje: em franca decadência, ainda capazes de nos entreter, mas longe de suscitar qualquer real admiração do resto do mundo.
“SUPERMAN”, DE JAMES GUNN
Com David Corenswet, Rachel Brosnahan e Nicholas Hoult
Em cartaz nos cinemas








