O valor inclui desde consultas médicas e medicamentos até o tempo dedicado ao cuidado diário — contabilizado como custo indireto. E é aí que mora a desigualdade: enquanto os custos médicos (diretos) ainda são baixos se comparados a outras doenças, como o câncer, o tempo e o esforço das famílias seguem invisíveis nas políticas públicas.
O estudo, parte do Relatório Nacional sobre a Demência no Brasil (ReNaDe), foi conduzido pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz com apoio do Ministério da Saúde. A equipe analisou dados oficiais e entrevistou 140 duplas de pacientes e cuidadores em 17 cidades brasileiras.
O custo por paciente varia conforme o estágio da doença — vai de R$ 2.082 no início para R$ 3.893 no estágio avançado. Ainda assim, o estágio intermediário concentra a maior parte dos gastos (40,8%), por reunir o maior número de casos.
O custo indireto da demência pesa mais sobre as mulheres
Os pesquisadores consideraram como custo indireto o tempo dedicado pelos cuidadores informais — usando como base o salário médio de cuidadores profissionais e, em outra simulação, o salário médio nacional. Serviços como centros de convivência ou casas de repouso ficaram de fora da conta, por escassez de dados confiáveis e baixa oferta no país.
O retrato reforça o que os profissionais da área já sabem — mas que ainda não se traduz em orçamento ou políticas públicas. Quase 70% dos pacientes entrevistados eram mulheres, e 86% dos cuidadores também.
Muitas dessas cuidadoras precisaram abandonar o emprego, adiar a aposentadoria e assumir sozinhas o impacto emocional e financeiro do cuidado — um esforço que sequer entra na conta do tempo de serviço ou da previdência.
Cleusa Pinheiro Ferri, também autora do estudo, destaca que, nos países de renda mais alta, o custo da demência é maior — mas distribuído de forma mais justa, com mais diagnósticos, acesso a tratamento e serviços estruturados. No Brasil, o que aumenta é o peso sobre as famílias, especialmente as mulheres.
(Com informações da Agência Bori)



