Mato Grosso aparece entre os dez estados com maior número de conflitos por terra registrados em 2024, segundo o relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgado nesta quarta-feira (23).
O estado teve 102 ocorrências, figurando como o sexto com mais registros no país — à frente de Mato Grosso do Sul, Acre e Goiás.
O levantamento revela um cenário preocupante: o número total de conflitos por terra no Brasil subiu de 1.724 para 1.768 em um ano. As disputas por água também aumentaram, de 225 para 266.
A única queda registrada foi nos conflitos trabalhistas rurais, ligados ao trabalho escravo contemporâneo, com 151 casos — número que a própria CPT considera subnotificado.
Em Mato Grosso, os impactos ambientais também chamam atenção. O estado concentrou 25% de todos os incêndios associados a disputas fundiárias em 2024, o que representa um dos maiores percentuais do país.
O aumento nacional de incêndios foi de 113%, saltando de 91 para 194 ocorrências. Já o desmatamento ilegal subiu 39%, com 209 casos — a maior parte deles na Amazônia Legal, onde Mato Grosso está inserido.
Violência no campo atinge povos indígenas e comunidades tradicionais
O relatório destaca que as principais vítimas da violência relacionada à luta pela terra foram indígenas (29%), posseiros (25%), quilombolas (13%) e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (11%).
Os principais autores apontados são fazendeiros (44%), empresários (15%) e, em menor grau, agentes do governo federal (8%).
Apesar da queda no número de assassinatos no campo (13 em 2024, o menor desde 2015), o país registrou um recorde histórico de ameaças de morte: 272 casos — o maior volume da última década.
Em quase metade dos homicídios (6 dos 13), a autoria foi atribuída a fazendeiros, com envolvimento direto ou apoio de forças policiais em ao menos quatro desses casos.
Agrotóxicos e contaminações em alta
Outro dado alarmante foi o crescimento explosivo dos casos de contaminação por agrotóxicos, que passaram de uma média de 24,3 por ano (entre 2015 e 2023) para 276 apenas em 2024. O Maranhão lidera, com 228 casos — equivalente a 83,5% do total.
A Comissão Pastoral da Terra ressalta que o aumento nos conflitos, nas contaminações e nos crimes ambientais evidencia a fragilidade das políticas públicas de proteção aos territórios e às comunidades tradicionais, além de cobrar providências urgentes das autoridades.
A Comissão Arns, que atua na defesa dos direitos humanos, também se manifestou exigindo respostas concretas do Estado para frear a escalada de violência no campo brasileiro.



