Os apaixonados por carros, motos, caminhões e até ônibus antigos têm uma nova referência no Brasil. Trata-se do Carde, museu que será aberto ao público no dia 28.
O nome é a sigla para Carro, Arte, Design e Educação. Instalado em um terreno de 200 mil m² na cidade de Campos do Jordão (interior de São Paulo), o espaço lida com um microuniverso riquíssimo: o antigomobilismo movimentou R$ 32 bilhões só em 2019, último ano de dados coletados.
Anunciado em 2018, o museu, que é amparado pela Fundação Lia Maria Aguiar, poderia ter ficado pronto antes. “Não nos contentávamos apenas em manter a história dos automóveis, os considerando como um bem material, sem que as pessoas pudessem interagir, participar, entender”, diz Luiz Goshima, idealizador do e diretor-executivo do Carde.
“Fomos construindo essa ideia de estruturar o automóvel como sendo um elo entre história, arte, cultura e todas as questões sociais do nosso país.”
Com a revisão da proposta, vieram o cenógrafo Gringo Cardia e a historiadora Heloisa Starling.
“Fiquei reticente quando o Goshima me convidou, porque não entendo muito de carro. Mas quando compreendi o projeto, vi que o carro pode contar muitas histórias. Todos têm uma emoção com seus automóveis, porque são como pequenas casas que nos protegem”, afirma Cardia.
“Quando recebi a relação dos carros e fui pesquisá-los, me dei conta de que é como se ele acendesse o farol e iluminasse e abrisse um passado para nós, que está se movimentando”, diz Heloisa, que é professora titular de História do Brasil da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
Não apenas pela soma, mas sobretudo pelos níveis de relevância e raridade de alguns modelos —como a Ferrari F50 em versão pré-série ou um raríssimo Fusca Hebmüller—, o Carde se equipara a equipamentos como Autoworld (Bélgica), Petersen (EUA)e Shikoku (Japão), há tempos medalhões do Olimpo dos museus automotivos.
O acervo de Campos do Jordão também se equipara ao de algumas montadoras, como o Audi Museum Mobile (Alemanha) ou o Henry Ford (EUA).
Acervo é dividido em salas temáticas
A viagem pelo Carde começa no piso térreo. Logo após assistir a um vídeo de boas-vindas apresentado por Luiz Goshima, Lia Maria Aguiar —que é herdeira do banco Bradesco— e Vanessa Costa (diretora da fundação), o visitante encontra um espaço definido como câmara de descompressão.
A antessala “prepara o visitante para aguçar a análise crítica e se abrir às percepções”, diz a explicação sobre o local.
Ao cruzar a porta, surge um cajueiro de metal com folhagens em crochê. No topo de sua copa, há um raro Brasinca Uirapuru 1964 pintado com temas indígenas.
A segunda sala temática se chama Visionários da Tecnologia. O espaço entrega à João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (1926–2009) seu adequado, embora tardio, reconhecimento. Azulejos brancos e uma estante com maquetes e gabaritos emolduram um utilitário Gurgel X-12 e um elétrico Itaipu E-400, tentativa visionária de se produzir um modelo nacional a bateria.
O espaço denominado “Os Novos Direitos e a Consciência Ambiental” exibe um Volkswagen Gol GTi, um Ford Escort XR3, um Chevrolet Kadett GS, um Ford Maverick GT e um Volkswagen Passat TS. Todos convivem harmoniosamente com obras de Frans Krajcberg (1921-2017) e de José Zanine Caldas (1919-2001).
Ainda estão pela frente as salas temáticas “Era Vargas: O Brasil entre a Ditadura e a Democracia” e “A Arquitetura do Futuro”. A primeira abriga um dos cinco Cadillac V-16 Series 39-90 Coupé produzidos. Na segunda, veículos como FNM 2000 JK, Chevrolet Opala e Romi-Isetta materializam os primeiros passos da indústria nacional.
Num clima meio psicodélico, duas unidades do Willys Interlagos ocupam o espaço “O Brasil na Pista”, enquanto a sala “Desfile do Poder” exibe automóveis presidenciais, como o Willys Itamaraty Executivo, única limusine nacional.
O segundo andar tem mais cara de exposição de carros. É o lugar ideal para quem, nos anos 1980 e 1990, tinha grudado na parede do quarto ou na porta do guarda-roupas posters de Ferrari F50, Jaguar XJ 220, Porsche 911 Turbo, Lamborghini Countach e Dodge Viper. os raros Citroën DS Safari e DS ID 19 P Berline também merecem destaque.
É nesse espaço do museu que está um dos protótipos do McLaren Senna GTR. Outro exemplar conectado ao tricampeão de Fórmula 1 é o que restou da Mercedes-Benz 300 TE 1986, ainda sem futuro definido pelo Carde. A perua que o piloto usava quando passava pelo Brasil foi destruída durante um incêndio em Limeira (interior de São Paulo).
Além dos cerca de 80 carros exibidos hoje, há mais 500 à disposição. A maioria pertence à fundação, mas há contribuições de Luiz Goshima, do seu falecido pai e da própria Lia Maria.
MUSEU CARDE
Abertura: 28 de novembro
Endereço: rua Benedito Olímpio Miranda 280, Alto da Boa Vista, Campos do Jordão (SP)
Dias e horários de funcionamento: de quinta a domingo, das 10h às 18h
Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada); estudantes têm direito à gratuidade








