A queda de cavalo aconteceu em maio de 1995. Aos 42 anos, o super-homem do cinema sofrera uma lesão na medula que o deixara paralisado do pescoço para baixo. Para sempre. A medicina não dispunha de poderes para fazer o imigrante de Krypton, que voava pelos céus da Metrópolis nova-iorquina do cinema, voltar a andar. No documentário “Super/Man: a história de Christopher Reeve”, destaque do Festival do Rio com sessão hoje, às 16h15, no Kinoplex São Luiz, e a partir de quinta-feira em cartaz nos cinemas, é a voz do ator que revela sua reação imediata ao acidente: “Vocês deveriam me deixar morrer.”
“Vocês” eram sua mulher, Dana, com quem havia se casado havia três anos, e os três filhos — Matthew, 15, e Alexandra, 11, da relação com a inglesa Gae Exton, e Will, o caçula, de 2 anos. Eles não o deixaram. E, nos nove anos seguintes, até sua morte, em 2004, vitimado por um ataque cardíaco, a vida real repetiu, em ao menos um aspecto, a trama da história em quadrinhos parida em junho de 1938, símbolo da força e das inseguranças ianques, um ano e três meses antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial — Reeve, assim como Clark Kent, buscaria usar a excepcionalidade, agora advinda da tragédia, em benefício do coletivo.
Na ficção, o herói enfrenta vilões arquetípicos, entre eles Lex Luthor, o general Zod e Brainiac. Na vida, Reeve se torna militante e cria, com Dana, a fundação que arrecadaria mais de US$ 140 milhões (R$ 780 milhões) para pesquisas com células-tronco. Investimento no conhecimento que beneficiou pessoas com deficiência, mas também as que vivem com leucemia, doenças hematológicas e cardíacas. Em seu obituário, o New York Times assim o sintetizou: “Christopher Reeve, símbolo de coragem.”
O GLOBO conversou por videochamada com os filhos de Reeve cinco dias antes do aniversário do ator, que faria 72 anos mês passado. Perguntada sobre o que o pai estaria fazendo, Alexandra Reeve Givens, CEO do Centro para a Democracia e Tecnologia, ONG voltada para a defesa dos direitos civis na era digital, e que, com os irmãos, também comanda a Fundação Christopher & Dana Reeve, não titubeou:
— O que mais amava: dirigir e atuar. Mas também teria o que falar sobre o estado do planeta, a necessidade urgente de se ter mais empatia pelo outro e de se cultivar o humano. O filme aumenta minha saudade, mas também reafirma que, na vida pública, “seu” Chris traduziu seus melhores poderes como o fez em casa, traduzindo heroísmo como integridade, buscar reconhecer seus defeitos e tentar melhorar.
Entre as lembranças, conta, destacam-se a ida do pai ao Chile, durante a ditadura de Pinochet, para se solidarizar com jornalistas e artistas ameaçados pelo regime. E as manifestações em defesa de ativistas ambientais denunciados como terroristas nos EUA.
— E, após ficar tetraplégico, ele se contrapôs aos que condenaram pesquisas com célula-tronco. Sofreu críticas, cometeu erros no ativismo, mas jamais deixou de usar conscientemente a capa que um dia lhe celebrizou para avançar plataformas que considerava justas — disse Alexandra.
Diretores de “Super/Man: a história de Christopher Reeve”, o suíço Ian Bonhôte e o inglês Peter Ettedgui já haviam contado na tela grande o nascimento das Parolimpíadas e a trajetória do estilista Alexander McQueen, que se matou aos 40 anos, em 2010. Histórico que os levou a serem contatados pelos filhos de Reeve após a venda da casa de férias da família, quando mergulharam no arquivo do pai, lá preservado.
O exercício os fez refletir sobre o paradoxo do desabrochar do herói de carne e osso após a trágica aposentadoria forçada do super-homem do cinema e, também, da vida em família. Além de reinventar o herói que chegara pela primeira vez ao cinema no fim dos anos 1940, o ator era dublê de piloto, atravessara o Atlântico duas vezes sozinho e se destacara em iatismo, mergulho, esqui, patinação no gelo, tênis e hipismo. Também era craque no piano.
— Precisávamos contar essa história que é tão magnética, claro, por ele ter sido o Super-Homem — diz Bonôte. — Mas não temos dúvida, até por não sermos americanos nem acreditarmos em homens que voam (risos): o Reeve pós-acidente foi muito mais heroico do que o personagem-fetiche dos quadrinhos que recriou nos filmes.
Uma nova reencarnação do herói chegará aos cinemas no ano que vem. Com direção de James Gunn, o americano David Corenswet, tão desconhecido quanto Reeve durante as filmagens do original em 1977, é quem abrirá desta vez a camisa de gola branca para se revelar indestrutível. Ou quase. A mesma Warner do filme de orçamento milionário distribui o documentário. Mas a suposição de oportunismo é reduzida pela realidade: “Super/Man: a história de Christopher Reeve” só foi adquirido pela gigante do entretenimento após o burburinho causado pela apresentação do indie no Festival de Sundance deste ano.
Amizade com Robin Williams
No universo da DC Comics, não há dupla mais dinâmica do que Batman e Robin. Pois o documentário de Ian Bonhôte e Peter Ettedgui mostra que parceria muito mais consequente foi a de um outro Robin, o Williams, com o Super-Homem da vida real. Centrado no tributo da família aos criadores da Fundação Christopher & Dana Reeve, “Super/Man: a história de Christopher Reeve” também é uma ode à irmandade de dois ícones de Hollywood. Em um dos depoimentos mais fortes, Glenn Close (a “tia Glenny”) diz ter certeza de que o protagonista de “Uma babá quase perfeita” não teria se matado em 2014, aos 63 anos, se Reeve estivesse vivo.
— Eles eram irmãos desde quando dividiram um quarto nos tempos de estudante. Após o acidente, tio Robin, e sua mulher, tia Marsha, ficaram ainda mais presentes em nossas vidas — conta o diretor Matthew, o primogênito dos Reeve. — Dois dias depois, ele apareceu no hospital e garantiu a primeira reação do papai, ao fingir ser um proctologista russo. Eles nos apoiaram emocionalmente, financeiramente e de maneiras tão profundas que não se traduzem em palavras. Um era a força e o consolo do outro.
O expansivo e engraçado Williams, acrescentam os diretores, era o oposto exato do galã mais reservado. Mas, como contam no documentário, um deu ao outro “ondas de amor e compreensão” vida afora, algo raro que souberam identificar e cultivar.
— Quando começamos a mostrar o filme, Will (o caçula dos Reeve, repórter e âncora televisivo) foi abordado por pessoas que diziam serem próximas de seu pai. Ele foi muito educado, mas dividiu conosco não se lembrar deles em casa nos duros anos após o acidente. Robin e Marsha estavam lá o tempo todo — conta Bonhôte.
Marsha Williams não participou de nenhum dos tributos a Robin. Mas fez questão de abrir, de forma inédita, o arquivo pessoal do casal para “homenagear os compadres”. Reeve era padrinho de Zack, filho dos Williams e hoje ativista na área de saúde mental nos EUA.
O filme também se debruça sobre a complexidade do jovem ator de teatro que se tornou, da noite para o dia, uma das figuras mais identificáveis do planeta. Lá estão a relação fraturada com o pai, a dificuldade em se comprometer emocionalmente, o distanciamento dos filhos mais velhos e a relação de amor e ódio com o personagem que lhe proporcionou fazer o que bem quisesse com sua carreira mas o aprisionou em franquia cujas sequências desprezava.
No filme de 1h40min, os diretores usaram, sem ordem cronológica, trechos de filmes caseiros dirigidos por Matthew logo após o acidente. Imagens que revelam obstáculos, cansaço e cuidados da vida em família. Também registraram depoimentos reveladores de parceiros famosos e próximos de Reeve, entre eles o próprio Robin Williams, Glenn Close, Susan Sarandon, Whoopi Goldberg e Jeff Daniels.
Homenagem a Dana
Além de garimparem anedotas saborosas dos bastidores da Hollywood dos anos 1970 aos 1990, Bonhôte e Ettedgui não se avexam em fazer o espectador ir às lágrimas. Especialmente ao acompanhar a história de amor de Reeve com Dana.
A atriz e cantora se torna força importante na reaproximação do pai ausente com os filhos mais velhos. Sem nunca ter fumado, descobre um câncer do pulmão, causa de sua morte, aos 44 anos, um ano e oito meses após a do marido. Merece um filme só dela.
O luto pelo pai e por Dana, contam os Reeve, é permanente. E transformador. Curaram a própria dor ao honrá-los com o compromisso de seguir a luta pelo financiamento científico e pela defesa de qualidade de vida para “os semelhantes deles, ou seja, nossos”.
REVELAÇÕES DO DOCUMENTÁRIO
– Conselho furado. Colega de elenco de uma peça off-Broadway, na Nova York de 1977, William Hurt aconselhou o amigo a não aceitar se tornar o Super-Homem no filme de Richard Donner. A lógica do futuro vencedor do Oscar de melhor ator em 1986 por “O beijo da Mulher-Aranha”, de Hector Babenco, era a de que filmes de super-herói eram uma piada. O filme se tornou campeão de bilheteria.
– Ninguém queria. Antes de jogar as fichas em um ator desconhecido, a Warner tentou convencer Robert Redford e um par de galãs a fazer o “mais americano dos heróis”. Testou até Bruce Jenner e Arnold Schwarzenegger. Um dos trunfos do documentário é mostrar o teste que garantiu a capa vermelha a Reeve.
– Brando e Hackman. Reeve estava animado para trabalhar no filme com seus heróis na vida real: Marlon Brando, que faria seu pai, e Gene Hackman, Lex Luthor. Duas decepções. Brando, conta, “pegou seus milhões e quase não deu oi no set”. E Hackman achou graça do novato querer ensaiar para filme de super-herói.



